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sábado, 6 de abril de 2013

AS SENSAÇÕES DE UM EX-MENINO

Finalmente sou feliz. Passei meio século confuso, alternando sentimentos e visões de mundo. Detesto a força das convicções, mas  sinto-me poderoso ao abraçar o corpo nú e absoluto das minhas convicções. Pouco importa o que dizem. Pouco importa mesmo. Eu fui um menino obediente e crédulo durante décadas e décadas. Acreditei pra valer em todas as bobagens que me infligiram. Havia muita beleza na minha estupidez. Era lindo pensar que os outros eram os principais fornecedores do meu oxigênio. Era comovente não conseguir ver a maldade alheia. Era tocante converter todos os discursos falazes em verdades inquestionáveis. Foi difícil chegar aqui. As minhas ilusões não morriam nem se suicidavam e eu tive que matá-las a punhaladas. Derramei rios de sangue abstrato. A ordenha das minhas desilusões me proporciona um prazer infinito. Cada ilusão que sacrifiquei foi uma descarga de ocitocina. Sinto-me tranquilo e calmo como depois de um orgasmo muito difícil de ser alcançado.

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