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quarta-feira, 31 de julho de 2013

POEMA EM LINHA RETA

Para quem vive como nós, o rotineiro teatro social, os discursos prontos e as ações programadas, torram o saco. Quase ninguém admite erros. Estão todos certos. Absolutamente todos. Se estão todos certos  e são todos corretos por que será que este planeta é uma merda?
Mas se eu admitir um erro, estou PHodido. A humanidade cai de pau na minha pobre pessoa. Se ninguém erra, ao admitir abertamente o meu erro, as minhas fraquezas e a minha vulnerabilidade, viro Satanás. Então sou obrigado a fazer como todos: FINGIR que não cometo erros. Legal, né? Vou fingir que eu sou o máximo. Tá bom assim?
Existem os que mentem bem pra caramba; são os profissionais da mentira também conhecidos como mitomaníacos ou mitômanos - É caso para a Psiquiatria PESADA. Há os quem mentem compulsivamente para si mesmos. Estes são os mais perigosos porque fazem da mentira uma religião. E acreditam tanto nas próprias mentiras que são imbatíveis. Para eles poderíamos dizer que é quase tudo mentira. Como existem pessoas perdidas neste planetinha de doido!
Com essa maluquice do Politicamente Correto, a dissimulação e a representação recrudesceram de tal forma que a situação está insustentável. Apelo para a autenticidade, para a espontaneidade e para verdade. Não aguento mais tantos atores sociais. Representar me estressa. Não gosto de representar. E tenho certeza que estou no caminho certo pois muitos falsos amigos já foram para a puta que os pariu. Dizer a verdade, dizer o que se sente e o que se pensa espanta e afasta as pessoas. Acho ótimo. Será que esse pessoal não se cansa de tanto mentir? Ou será que a mentira já foi tantas vezes repetida que se transformou numa verdade irrefutável?
Fernando Pessoa já tratou deste assunto, muito melhor que eu, há muito tempo. Ouçam o poema e leiam-no.
http://www.youtube.com/watch?v=4PqWJyEefbo


Poema em linha reta

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


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