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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

QUEM FAZ A FEIURA DO PALAVRÃO?

Antes de qualquer outra coisa, cabem duas explicações. A primeira é que eu pertenço à geração X para a qual o palavrão não tinha, nem tem, as conotações psicóticas da modernidade líquida e hipócrita. Vivemos o florescimento e o apogeu da era do Homo hipocritus. Em segundo lugar, palavrão é tudo o que remete o ser humano à sua escala mais animal. E isso, a sociedade dita civilizada não admite. Todas as palavras que são classificadas como palavrão fazem invariavelmente referência explícita ao animal que somos: sexo, práticas sexuais, partes sexuais, orifícios excretores, excreções, etc. No fundo, trata-se de tudo aquilo que gostaríamos de esconder, tudo o que gostaríamos de não carregar nas entranhas da nossa mísera condição humana, tudo o que não admitimos publicamente possuir, tudo o que destrói o nosso teatrinho diário  e insuportável de seres "civilizados".
Tudo o que o palavrão denuncia existe no ser humano. Ninguém inventou ou inventa absolutamente NADA. Em última análise, NÓS SOMOS TODOS UM ENORME PALAVRÃO ANDANTE. Se as pessoas não conseguem conviver com o que de fato são, se precisam permanentemente representar, isso é trágico, patológico e faz parte de mais um desprezível lugar comum. É preciso saber de uma vez por todas que as palavras não mudam as coisas. As coisas continuam sendo o que sempre foram. Os loucos acham que as palavras mudam as coisas. Não mudam. Lamento muito, grandes malucos. A expressão: "Mudar de endereço cósmico", não muda em nada o prosaico ato de morrer.
Quem não consegue tolerar o que é, vai viver eternamente nesse cansativo faz de conta que não leva ninguém a lugar nenhum. Peço um pouco de maturidade. Não aguento mais tanto adulto infantilizado brincando no parque. É muito ridículo.
Então, quem faz a feiura do palavrão? A feiura do palavrão é arquitetada por quem o ESCUTA, jamais por quem o diz. De uma forma geral, quem diz palavrão é autêntico e espontâneo. Pode até não ser autêntico mas com certeza é espontâneo. Já quem escuta o palavrão, viaja na maionese e na porcaria e se escandaliza. Promove o que eu chamo de autoescândalo porque se escandaliza com elementos inexoráveis da sua própria compleição. Quem escuta o palavrão acha que a hora em que o palavrão é dito, não é hora para masturbações e outras digressões sexuais e fica chateado(a) com quem lhe desencadeou tais sensações. São pessoas recalcadas que vivem muito mal com elas próprias e com o mundo. São pessoas que não conseguem transcender o onírico e o delirante. São pessoas que não sabem quem são, que têm uma vaga ideia da realidade, que têm uma deplorável vida sexual ou que são muito sexualizadas ou muito perversas e optaram pelo diuturno teatro existencial.
Tenho um gigante e aprofundado menosprezo por essa gente tão miúda, tão subespécie,  que acaba por ter alguma importância social e política na medida em que supervisiona, censura e demoniza a livre expressão pública e para isso, conta com o apoio de um número assustador de gente falsa.
P. S.- Em homenagem aos hipócritas, esta postagem é sem palavrões porra!

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