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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

OS NOVOS TORTURADORES


Há quem se refira à tortura como coisa do passado; passado remoto ou menos remoto. A tortura tem o seu estereótipo e é baseadas nos estereótipos que as pessoas a reconhecem. Entretanto, para os mais sensíveis e observadores, a tortura é a coisa mais pós-moderna que existe.
Eu já fui várias vezes torturado e não pude reclamar, posto que a tortura era para todos. Todos conhecem os comerciais das Casas Baía que são o protótipo da tortura contemporânea. E quase todos os outros comerciais também te induzem através da tortura ao consumismo. Outrora, a tortura era para convencer que deus existia onipotente e etc , que Pinochet era gente fina e etc, que os militares eram a melhor solução e etc, que delatar é bom e traz benefícios e etc,  agora, é para te dissuadir que comprar é o caminho mais curto para a felicidade. A tortura não mudou muito. Vou dar um exemplo loquaz.
Estou na fila do supermercado Extra, uma excrescência comercial. É o lugar ideal para pegar tétano pois os carrinhos estão todos enferrujados.  Não há pior supermercado na via láctea inteirinha. Podem procurar.  O supermercado Extra é uma bosta cheia de gente pisoteando o chão do capeta e sem ar condicionado num verão de 42 graus.
Estou na porra da fila e ao mesmo tempo escuto um energúmeno infeliz que foi escolhido para a tarefa porque dizem que tem a voz grossa e o peru fino, para passar em desfile as "OFERTA". Puta que o pariu! A fila não anda e as "OFERTA" "aumenta" cada vez mais. (Comprar as "oferta" é levar pra casa o Santo Graal.) É um desespero. A adrenalina é secretada aos borbotões. A corrente sanguínea é adrenalina pura. Você tem vontade de mandar calar a boca do papagaio capitalista, tem vontade de berrar, tem vontade de chamar o gerente, fica à beira do surto psicótico e não faz nada. Depois dizem que não sabem porque a incidência do câncer aumentou tanto. Eu sei muito bem. (Está comprovado cientifícamente que atitudes politicamente corretas para seres verdadeiros e espontâneos, provocam câncer. Esta conclusão não é válida para os hipócritas. Até o câncer evita os hipócritas.)
Deveriam criar mecanismos jurídicos para punir os Novos Torturadores. Ninguém merece tanto sofrimento. O caralho das "OFERTA" repetidas até  o seu saco estourar com barulho e tudo, não param.
A tortura quase sempre vem acompanhada do aumento do volume de som nas publicidades criminosas. As vantagens dos produtos são repetidas aos estertores da exaustão psicológica. E  ainda estudam a Idade Média como um período histórico longínquo onde triunfou a Inquisição. Inquisição é propaganda de cerveja. A tortura do trigo, da cevada, sem falar do lúpulo, que quer te convencer que ser bêbado é bonito.
Há também a tortura insidiosa e suave, se é que há tortura suave. As publicidades de margarina, esse produto esdrúxulo que nem o organismo reconhece, ofendem pela absoluta falta de senso de realidade. Quem acredita na atmosfera existencial da publicidade de margarina, também acredita em papai noël, em virgindade de piranha, na honestidade dos políticos e nos duendes da Xuxa. 
Novos tempos, velhas torturas com novas crueldades. E viva-se com um barulho desses...
Vai uma oferta aí?!!!!! 
P.S.- Quase ia esquecendo dos templos full time da Tortura: Shoptime, Polishop, Tapete Persa, Sky, Ricardo Eletro, etc, etc. Nestes autênticos DOI-CODIs Civis, são praticadas as mais apuradas Técnicas Persuasivas através das mais infames Falácias Indutivas. Depois também  existem os que já estão viciados em tortura e que se chamam Shopaholics (Consumistas compulsivos.) Esses adoram uma tortura(a tortura não mata, mas compromete o cérebro) e qualquer compra, qualquer que seja. Até um pote plástico para guardar porra nenhuma.
Se leu até aqui, está ótimo. Se não tiver paciência para ler o resto, tudo bem. Está ótimo. 
APÊNDICE 
"No Brasil existe confusão entre os termos propaganda e publicidade por um problema de tradução dos originais de outros idiomas, especificamente os da língua inglesa. As traduções dentro da área de negócios, administração e marketing utilizam propaganda para o termo em inglês advertising e publicidade para o termo em inglês publicity. O termo "publicidade" refere-se exclusivamente à propaganda de cunho comercial. É uma comunicação de caráter persuasivo que visa defender os interesses econômicos de uma indústria ou empresa. Já a "propaganda" tem um significado mais amplo, pois refere-se à qualquer tipo de comunicação ideológica (as campanhas eleitorais são um exemplo, no campo dos interesses políticos). Para termos mais segurança com as definições, precisamos recorrer à Lei 4.680, que regula a profissão. Segundo a Lei, "Art. 5º - Considera-se propaganda qualquer forma remunerada de difusão de ideias, mercadorias, produtos ou serviços, por parte de um anunciante identificado." Art. 7º - Os serviços de propaganda serão prestados pela Agência mediante contratação, verbal ou escrita, de honorários e reembolso das despesas previamente autorizadas (revogado pelo Decreto nº 2.262 de 26/06/97).VIII - A ideia utilizada na propaganda é, presumidamente, da Agência, não podendo ser explorada por outrem, sem que aquela, pela exploração, receba a remuneração justa, ressalvando o disposto no Art. 454, da Consolidação das Leis do Trabalho. I. A Propaganda é a técnica de criar opinião pública favorável a um determinado produto, serviço, instituição ou ideia, visando orientar o comportamento humano das massas num determinado sentido.
Etimologicamente propaganda se refere ao ato de propagar, seja algo abstrato como uma ideia, seja algo concreto como um produto. Já publicidade é tornar público, o que só é possível através da propaganda."

Um comentário:

  1. To rindo muito - e refletindo! É a mais pura verdade. Beijos. Tatiana.

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