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sábado, 29 de novembro de 2014

COMO DEUS SALVA VIDAS



 UMA HISTÓRIA REAL
Esta é a história de Sara. Sara trabalhava demais. Depois que o seu namorado foi para os Estados Unidos, Sara se enfiou no trabalho. Nunca entendi muito bem a cabeça de Sara. Aliás, pouco entendo da cabeça das pessoas. Deixa p'ra lá . Levei meio século para entender a minha. É muito compreensível não compreender os outros.
Sara era professora de inglês. Adorava ir para Miami e fazer cirurgias plásticas. Dizia que fazia plásticas porque se amava. Eu sempre achei que ela  se odiava profundamente. Quem se ama mesmo não fica tão preocupado assim com a aparência. Para quem se ama minimamente, a opinião dos outros perde a relevância. Tanta plástica  para despertar o amor dos outros. Sara não sabia que o amor dos outros é possível mas muitíssimo improvável. Coitada! Tomou tanta anestesia, sofreu tantos cortes e lipoaspirações para não conseguir intuir que tudo que há de melhor no mundo estava dentro dela. Pobre Sara! Falava tanto em Deus, mas só queria atrair o Capeta. E é assim mesmo. Quanto mais as pessoas me falam em Deus mais elas se parecem com o Diabo.
Certo dia, Sara faltou ao trabalho. No dia seguinte à sua ausência veio a terrível notícia. Sara estava no C.T.I. entre a vida e a morte. Espantou-me a indiferença geral diante de fato de tamanha gravidade. Hoje está todo mundo assim, insensível. Acho que a carga desses dois milênios deixou as pessoas em coma existencial. Ninguém permite mais que o coração tome a dianteira. Parece um planeta de zumbis. E as coisas começaram a piorar com hora marcada, na virada do milênio. Acho até que o mundo acabou mesmo. Diziam que o mundo ia acabar no ano dois mil. Não é que acabou mesmo! Há 14 anos que sabemos que há vida depois do fim do mundo; uma vida de merda.
Sara lutou três dias no C.T.I. e foi transferida para o quarto no quarto dia. Espalhou-se a notícia que ela estava fora de perigo.
Sara chegou ao hospital com febre  e sentindo-se muito fraca. Foram feitos os exames de praxe e a tomografia constatou que algo de muito estranho estava acontecendo na sua vesícula. Foi operada de emergência  e antes da operação o médico disse-lhe que se ela não fosse operada naquele instante ela morreria. Sara pôs-se a chorar. O plantão do referido médico já tinha acabado e ele preparava-se para ir para casa. Abortou a saída, operou-a, retirando cálculos de uma vesícula completamente supurada. A septicemia era o próximo capítulo. Correu tudo bem e quinze dias depois Sara voltou ao trabalho ainda convalescendo.
Foi então que travei com ela o seguinte diálogo:
- E aí Sara? Que barra pesada! Escapou de boa, hein!. A vida é uma caixinha de surpresas.- disse
- É Joaquim, fui salva por Jesus. Deus me concedeu um livramento. Eu sabia que Deus não ia me abandonar. Deus não abandona os seus filhos. Deus é fiel. Senti a presença de Deus o tempo todo.
- Que Deus legal, hein! Muito legal. Fico até comovido. Agora se você foi salva por Deus por que você deixou aquele filha da puta daquele médico te operar? Por que você não deixou ele ir para casa? Já tinha acabado o plantão dele.  Que cara inconveniente! Não só não foi para casa como ainda abriu a tua barriga, costurou a tua vesícula e te mandou para o C.T.I. Que viado! Da próxima vez não permita que pessoas como ele atrapalhem a salvação de Deus. 

4 comentários:

  1. Excelente Texto. Parabéns! Ramiro

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  2. Você é espetacular... parabéns, textos maravilhosos!

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    1. Muito obrigado a você que usa a palavra espetacular. É para pessoas como você que eu vou continuar escrevendo. Valeu.

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