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sexta-feira, 20 de março de 2015

PROFESSOR EXPULSO DE SALA DE AULA

IMERSO NA LOUCURA
REVERSO DA CULTURA


 UMA HISTÓRIA VERÍDICA
O caso que eu vou narrar era perfeitamente previsível. Num mundo em que a educação foi rebaixada à categoria ordinária de mercadoria, num país em que Saúde, Educação e Transportes Públicos se tornaram uma fonte inesgotável de enriquecimento e numa época em que tudo virou produto a ser consumido, inclusive as pessoas, tudo pode acontecer. 
Conheço Luiz Antônio há mais de vinte anos. Trata-se de um professor competentíssimo, honesto e totalmente dedicado àquilo que faz. Tem mais de trinta anos de carreira. Conhece como poucos o seu ofício. Luiz é polêmico e gosta de polêmica. Tem uma vasta cultura geral por isso pode e deve ser polêmico. E não foi ele que inventou a polêmica. A polêmica brota espontaneamente no solo fértil de quem tem espírito crítico. A crítica não frutifica na aura de espíritos miseráveis. Vivemos num deserto de consciências. Hoje, a reflexão está catalogada como chata e pornográfica por alguns mecanismos de pesquisa e pela mentalidade vigente. Estimular a reflexão, questionar e tentar desenvolver a visão crítica é uma ofensa gravíssima para gente completamente alienada e estúpida. A ignorância e a imbecilidade são patrocinadas pelo Sistema com propaganda diária, massiva e exaustiva. Os governos não investem em educação, humilham os professores com salários aviltantes e isso não é nem um pouco por acaso; é absolutamente intencional.
Luiz Antônio é um abridor de olhos. Sempre foi assim. Sabe que da polêmica nasce a luz. E também sabe que são muito poucos os que gostam de luz neste planeta de trevas. Luiz Antônio abomina a Idade Média porque sabe que ela nunca deixou de existir. Afirma categoricamente que vivemos uma nova etapa do obscurantismo: a escuridão do politicamente correto, do estado islâmico, das câmeras de vigilância, do workaholicismo, do facebook e do smartfone. Só mudaram e se sofisticaram as formas de controle e de tortura. Por vezes, acho-o exagerado. 
Sempre me disse com muita convicção que o terceiro milênio era o período mais obscuro de que se tem notícia para quem pensa e faz sinapses com regularidade. Detesta gente sentada sobre a própria vida, cochilando, fingindo que vive e soltando flatulências. Não suporta mais esbarrar com os personagens do "Ensaio sobre a cegueira."
Tenho muita coisa a dizer sobre Luiz. Mas vamos aos fatos. Certo dia, Luiz chega para trabalhar como sempre fez. Na secretaria foi informado que o diretor-geral queria falar com ele. Ficou muito surpreso pois a sua aula começava dali a quinze minutos. Perplexo dirigiu-se à sala do diretor onde foi informado que não daria mais aula naquela turma porque tinha havido uma queixa contra ele. Ficou sabendo que se tratava de uma aluna de 18 anos chamada Ângela. A aluna estava muito enraivecida pois Luiz  ousara discordar da sua opinião sobre certas posturas islâmicas e ameaçava cancelar a sua inscrição. Segundo o diretor, Luiz também foi acusado de não ser neutro e o diretor pediu-lhe neutralidade se quisesse continuar no emprego. Todos sabemos menos o referido diretor que neutralidade não existe.
O diretor não estava muito interessado na versão de Luiz. Queria apenas livrar Ângela e a sua turma maravilhosa e muito poderosa da presença nefasta de um professor polêmico. Luiz nem teve tempo de apresentar a sua versão. O diretor mostrou-se muito preocupado e nervoso com a perda de alunos e foi enfático ao dizer que a instituição não podia perder nem mais uma aluna. Aluna? Aluna é apenas uma palavra do português arcaico que nos faz lembrar um passado relativamente recente. Não existem mais alunos; existem clientes. E não existem mais professores, mas vendedores de conhecimento obrigatório e às vezes inútil. Nem sei por que ainda chamam Luiz de professor. Essa condição já lhe foi roubada há muito tempo. O dinheiro é um genocida de valores fundamentais à dignidade humana.
Luiz tornou-se sem querer, um pastiche anacrônico de Sócrates acusado injustamente de perverter a jovem e ilibada clientela carioca. Não sei se vai chegar ao suicídio. A cicuta, ele acha fácil. Mas para que matar, quem já foi fuzilado pela truculência do status quo? 

Um comentário:

  1. Sei que não sou importante, mas mesmo assim te ofereço minha total concordância e solidariedade
    Hortencia

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