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terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O focinho do mal

Muitas vezes tenho a impressão clara que as pessoas andam de olhos vendados. Quem anda de olhos vendados tem os seus movimentos orientados pelos outros. É uma situação sedutora e confortável. Os videntes que se recusam a ver não querem exercitar as suas retinas. Preferem viver pelas córneas dos outros; às custas do olhar alheio.
Sócrates, já se ferrou há 2.500 anos ao propor à juventude ateniense a autonomia da visão. Eu não sou Sócrates, eu não sou nada, mas pelo menos faço jus aos meus olhos físicos e metafóricos que a natureza e a vida me deram. E por isso sei que quem propõe autonomia, independência e poder pessoal, um dia vai se ferrar. Tudo é feito e previsto para o bando. Não correm riscos os que discursam para a boiada pacificada pela mentira.
Está todo mundo muito protegido por Papai Noel e outras entidades oníricas do encontro direto com o mal. Até parece, neste  velho e surrado faz-de-conta que o mal não existe. Até parece que gostam de você. Até parece. Até parece que você tem alguma importância. Até parece que os bons venceram finalmente. Até parece.
Adorei ter envelhecido e ter desenvolvido a capacidade de desmascarar o mal nas primeiras e balbuciantes hipocrisias. O mal não me assusta mais. Por saber que o bem é raro e que o mal é onipresente, estou familiarizado com os odores do mal. 
A minha maior ambição é poder permanecer imóvel e impávido diante dos horrores do mal. Confesso que ainda não cheguei a esse ponto. Mas hoje, já consigo identificar ao longe o monóxido tóxico que exalam os focinhos do mal.

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