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domingo, 11 de junho de 2017

Trabalhar até morrer

Michiyo Nishigaki encheu-se de orgulho quando seu único filho, Naoya, conseguiu um emprego em uma grande empresa de telecomunicações japonesa, assim que concluiu a universidade.
Naoya adorava computadores, e o novo emprego parecia ser uma ótima oportunidade profissional no competitivo ambiente corporativo japonês.
Dois anos depois, porém, a mãe começou a notar problemas."Ele me dizia que estava ocupado, mas que estava bem", relembra Michiyo."
Até que ele veio para casa para comparecer ao velório do avô e não conseguia sair da cama. Ele me dizia: 'Me deixe dormir um pouco. Não consigo levantar. Desculpe, mãe, mas me deixe dormir", acrescenta.
Mais tarde, ela soube por intermédio de colegas que o filho estava trabalhando dia e noite.
"Em geral, ele trabalhava até o horário do último trem, mas se perdesse esse acabava dormindo no escritório", conta a mãe. "Em casos extremos, trabalhava a noite toda até 22h do dia seguinte, totalizando 37 horas de trabalho."
Naoya morreu aos 27 anos, de overdose de medicamentos. Seu caso foi oficialmente considerado um de "karoshi" - termo japonês para descrever a morte por excesso de trabalho. 
O Japão tem tradicionalmente uma das jornadas laborais mais longas do mundo, e o fenômeno não é novo - o "karoshi" começou a ser identificado nos anos 1960. Mas casos recentes têm colocado o tema na pauta de debates no país. 
Jornada 
No Natal de 2015, Matsuri Takahashi, funcionária da agência de publicidade Dentsu, cometeu suicídio aos 24 anos. 
Logo veio à tona a informação de que ela estava em estado de privação de sono e havia acumulado mais de 100 horas extras nos meses que antecederam sua morte. 
Não é algo incomum, sobretudo entre jovens recém-iniciados no mercado de trabalho, explica Makoto Iwahashi, funcionário da Posse, organização que dá ajuda psicológica telefônica para essas pessoas. 
Ele diz que a maioria dos telefonemas que recebe consiste em reclamações quanto a longas jornadas de trabalho. 
"É triste, porque esses jovens profissionais acham que não têm alternativa", diz Iwahashi à BBC. 
"Ou você pede demissão ou trabalha 100 horas. E se você pede demissão, você não consegue viver", acrescenta. 
Para Iwahashi, a redução da estabilidade profissional aumenta a insegurança dos trabalhadores. 
"Havia karoshi nos anos 1960 e 70, (mas) a diferença é que, ainda que eles tivessem que trabalhar por muitas horas (naquela época), eles tinham emprego garantido para a vida. Não é mais o caso." 
Cultura da hora extra 
Dados oficiais apontam que há centenas de casos anuais de "karoshi" no país, incluindo enfartos, derrames e suicídios decorrentes da estafa profissional extrema. Mas ativistas acreditam que o número real seja muito mais alto. 
Quase um quarto das empresas japonesas tem empregados que excedem 80 horas extras semanais por mês - muitas vezes sem ganhos extras - diz um estudo recente. 
E, em 12% das empresas, os funcionários fazem mais de 100 horas extras por mês. 
São números significativos: é a partir de 80 horas extras no mês que se nota um aumento da possibilidade de morte do funcionário. 
O governo japonês está sob crescente pressão para conter o problema, mas se vê diante de uma tradição corporativa antiga - quem vai embora do escritório antes que seus colegas ou seu chefe passa a ser mal visto. 
No início deste ano, o governo lançou as "sextas premium", estimulando as empresas a permitir que seus funcionários saiam mais cedo - às 15h - na última sexta-feira do mês. Também incentivam os funcionários a tirar mais dias de folga. 
Os trabalhadores japoneses têm direito a 20 dias de férias por ano, mas atualmente 35% deles não usam nenhum dia sequer. 
Luzes apagadas 
Nos escritórios do governo distrital de Toshima, no centro de Tóquio, recorreu-se à ideia de apagar as luzes às 19h, para forçar os funcionários a irem embora na hora certa. 
"Queríamos fazer algo de visibilidade", diz o gerente do escritório, Hitoshi Ueno. "Não se trata de apenas reduzir a jornada. Queremos que as pessoas sejam mais eficientes e produtivas, para que todos possam resguardar e aproveitar seu tempo livre. Queremos mudar o ambiente profissional em geral." 
O foco na eficiência pode fazer sentido: enquanto o país tem uma das jornadas laborais mais longas do mundo, é o menos produtivo entre os países do G7, grupo das nações mais ricas. 
Mas críticos dizem que tais medidas são muito fragmentadas e incapazes de lidar com o problema central: que jovens profissionais estão morrendo por estarem trabalhando muito duro e por muitas horas. 
Para alguns, a solução passa em estipular um limite legal às horas extras. 
No início deste ano, o governo propôs restringir as horas extras a 60 horas mensais, permitindo que "em períodos de maior demanda" esse limite subisse a 100 - já na zona de perigo de "karoshi". 
Muitos acusam o governo de priorizar interesses econômicos ao bem-estar dos trabalhadores. 
"O povo japonês conta com o governo, mas está sendo traído", diz Koji Morioka, acadêmico que estuda o fenômeno do "karochi" há 30 anos. 
Enquanto o debate avança, mais jovens têm morrido, e grupos de apoio a famílias enlutadas ganham cada vez mais membros. 
Michiyo Nishigaki, mãe de Naoya, diz que seu país está "matando" sua mão de obra, em vez de valorizá-la. 
"As empresas focam apenas nos lucros de curto prazo", opina.
"Meu filho e outros jovens não odeiam trabalhar. São capazes e querem se sair bem. Deem a eles a oportunidade de trabalhar sem uma longa jornada ou problemas de saúde, e eles se tornarão um privilégio para o país", conclui.
BBC-Brasil

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