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sábado, 18 de agosto de 2018

O fim do mundo

Estamos em pleno fim do mundo. O fim do mundo não é um momento; é um processo.
Joaquim ESTEVES

Óticas mutiladas


É assustador como os valores e os conceitos mudaram para pior. 
A sinceridade é mais uma das qualidades que envelheceu. Está tudo velho e o novo é completamente insano.
Não há mais pessoas sinceras. Quem é sincero, hoje responde por outro adjetivo: polêmico, ou seja, duvidoso, controverso, discutível, problemático, etc. Ser sincero, agora é um grave defeito.

terça-feira, 31 de julho de 2018

Os cães de Pavlov


A repetição é uma das bases da assimilação, da memorização e da incorporação de conteúdos. A repetição não é todavia, a base de um verdadeiro aprendizado. Ivan Petrovich Pavlov serve para cachorros e seres humanos precários. Freud, Jung, Reich, Lacan e outros, só podem ser aplicados a seres mais sofisticados. Afinal, até prova em contrário, cães não sofrem de complexo de Édipo.
Em certas regiões e camadas desta limada e polida cultura Judaico-Cristã, só se pode aplicar Pavlov.
Os cães estão à solta, hidrófobos, espumosos, loucos e de terno e gravata . 
Os cães latem preservando orgulhosamente o tom e as pausas dos latidos politicamente corretos. 
Cair no abismo, viver no abismo, caminhar no abismo é para muito poucos. Rezar no abismo é recurso desesperado de determinado setor. Negar o abismo é uma estratégia pretensamente astuciosa de quase toda a humanidade. 
A repetição por suas características promove a manutenção, o estatismo, o imobilismo, a paralisia e conduz à infelicidade.

O prazer da solidão




Somos animais sociais, já dizia Aristóteles. Precisamos dos outros para viver e dar sentido ao que fazemos. Mas também precisamos estar com nós mesmos, sem interrupções, sem telefones celulares ou redes sociais e sem nada que implique ruído externo. Não falamos da solidão profunda, que nos aterroriza, mas de um tempo para refletir, que nos ajuda a sermos mais exigentes, mais criativos e mais felizes. Quase nada. Vamos ver por que ela é benéfica e como consegui-la.
Primeiro, saber conviver com a solidão nos torna mais livres. Quando nos angustiamos ao estarmos sozinhos, nos aferramos a relacionamentos que podem ser nocivos ou a propósitos dos quais no fundo não gostamos, mas que nos aliviam. Na medida em que sabemos conviver sozinhos com nós mesmos (não estamos falando em ser ermitãos que é outra coisa), podemos ser mais exigentes com aqueles que nos rodeiam e claro, isso nos ajuda a termos mais autoconhecimento.
A ciência provou que a solidão nos permite valorizar mais o que temos. Nos anos noventa, Reed Larson, professor de Desenvolvimento Humano da Universidade de Illinois, realizou um estudo com adolescentes pedindo que levassem um pager. Durante alguns dias, tiveram de informar com quem estavam, o que faziam e como se sentiam. O estudo mostrou que quando estavam sozinhos estavam mais tristes, mas, curiosamente, depois desse tempo, quando voltavam a estar em companhia, seus indicadores de felicidade aumentavam mais comparativamente. De certa forma, podemos dizer que a solidão age como uma bússola, que nos faz valorizar mais o que temos ou como Larson resume, “age como um remédio amargo”.
E finalmente, nos ajuda a desenvolver mais nossos talentos. Os grandes cientistas não teriam chegado às suas conclusões se não tivessem tido espaços para realizar seu trabalho de modo solitário. Mesmo os líderes mais admirados precisam assumir a solidão na tomada de certas decisões que nem sempre são compreendidas, mas que são necessárias, segundo a análise publicada na Harvard Business Review. Se não dedicarmos tempo para trabalhar sozinhos, será difícil desenvolver todo o nosso potencial, porque a pressão de grupo nem sempre tem um impacto positivo sobre nós.
Em suma, se certa solidão é boa, precisamos colocar um parêntesis no ambiente e aprender a estar com nós mesmos. Portanto, deveríamos fazer uma pergunta simples: quanto tempo passamos por dia sem que o mundo ou as obrigações nos distraiam? Nossa agenda, inclusive durante as férias, deve incluir um tempo para estar com nós mesmos, sem celular, sem televisão. O objetivo não é criar uma solidão guiada por redes sociais ou pela televisão, mas um tempo que nos permita refletir, desfrutar dos nossos hobbies, praticar esportes ou simplesmente não fazer nada. E embora isso não seja compreendido por aqueles que nos rodeiam ou estejamos no meio de uma grande balbúrdia, precisamos defendê-lo junto ao parceiro, à família ou aos amigos. Só assim seremos capazes de nos conhecer melhor, descansar e desfrutar mais das pessoas que estão ao nosso lado. 
El País (Adaptado)

terça-feira, 17 de julho de 2018

O comportamento de manada


A estratégia que vem sendo usada por perfis falsos no Brasil e no mundo para influenciar a opinião pública nas redes sociais se aproveita de uma característica psicológica conhecida como "comportamento de manada".
O conceito faz referência ao comportamento de animais que se juntam para se proteger ou fugir de um predador. Aplicado aos seres humanos, refere-se à tendência das pessoas de seguirem um grande influenciador ou mesmo um determinado grupo, sem que a decisão passe, necessariamente, por uma reflexão individual.
"Se muitas pessoas compartilham uma ideia, outras tendem a segui-la. É semelhante à escolha de um restaurante quando você não tem informação. Você vê que um está vazio e que outro tem três casais. Escolhe qual? O que tem gente. Você escolhe porque acredita que, se outros já escolheram, deve ter algum fundamento nisso", diz Fabrício Benevenuto, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), sobre a atuação de usuários nas redes sociais.
Ele estuda desinformação nas redes e testou sua teoria com um experimento: controlou quais comentários apareciam em um vídeo do YouTube e monitorou a reação de diferentes pessoas. 
Quanto mais elas eram expostas só a comentários negativos, mais tendiam a ter uma reação negativa em relação àquele vídeo e vice-versa. 
"Um vai com a opinião do outro", conclui Benevenuto. Em seu experimento, os pesquisadores chegaram à conclusão de que a influência estava também ligada a níveis de escolaridade: quanto menor o nível, mais fácil era ser influenciado. 
Texto adaptado

domingo, 15 de julho de 2018

A massificação da produção literária

Não é mais preciso ter talento. Basta ser arrogante o suficiente para intitular-se escritor. Paradoxalmente, numa época de baixíssima criatividade, o mundo pariu escritores em todas as latitudes.
O advento da publicação digital aliado à ausência absoluta da mais ínfima auto-crítica, intoxicou-nos de poetas e literatos.
Só o futuro poderá avaliar adequadamente a pretensão ridícula desta enxurrada incoercível de homens e mulheres de letras.
Misericórdia!

sábado, 23 de junho de 2018

O recato das almas


Definitivamente, o ser humano é o animal mais envergonhado da via láctea. Por ser nu, inventou a alta -costura e por horror a si próprio, perdeu-se em mil máscaras e disfarces.
Pertenço a uma  espécie-travesti que sonega a realidade e finge acreditar profundamente na representação e na trapaça.
E eu, já estou farto de gente  bem vestida e arrumada de corpo e alma. 

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Gato e sapato

Alguns ficam doidos tentando descobrir o sentido primeiro das expressões idiomáticas e dos provérbios. Não nos passa pela cabeça que muitas das vezes, são  obras de seres muito pouco brilhantes. 
Na expressão " fazer de gato e sapato" só a rima de gato com sapato pode explicar tamanha sandice.
A expressão inteligível deveria ser "fazer de cão e sapato". O cachorro sofre de ansiedade da separação e fica completamente louco diante da solidão. Já o gato, não só gosta da solidão como é feliz sozinho. 
Como maltratar alguém que está muito bem sozinho. Como fazer do gato, sapato? Como? Impossível.
Por analogia, deduzo que só os humanos que são demasiado caninos - e estamos muito mais próximos dos cães como animais gregários - podem ser vilipendiados, humilhados e desprezados pelo grupo.
O ser humano poderia desenvolver um lado que não lhe é próprio; o lado felino. E digo mais, gratuitamente e para todos: um ser humano que tem boas relações com a solidão e que tem a sua libido sob controle, é simplesmente imparável.
P.S.- Nenhuma destas constatações impede minimamente a convivência social.

sábado, 26 de maio de 2018

Kafka e a boneca viajante

Um ano antes de sua morte, Franz Kafka viveu uma experiência singular. Passeando pelo parque de Steglitz, em Berlim, encontrou uma menina chorando porque havia perdido sua boneca. 
Kafka ofereceu ajuda para encontrar a boneca e combinou um encontro com a menina no dia seguinte no mesmo lugar. 
Nao tendo encontrado a boneca, ele escreveu uma carta como se fosse a boneca e leu para a garotinha quando se encontraram. A carta dizia : “Por favor, não chore por mim, parti numa viagem para ver o mundo. ”. 
Durante três semanas, Kafka entregou pontualmente à menina outras cartas que narravam as peripécias da boneca em todos os cantos do mundo: Londres, Paris, Madagascar… 
Tudo para que a menina esquecesse a grande tristeza! 
Esta história foi contada para alguns jornais e inspirou um livro de Jordi Sierra i Fabra ( Kafka e a Boneca Viajante ) onde o escritor imagina como teriam sido as conversas e o conteúdo das cartas de Kafka. 
No fim, Kafka presenteou a menina com uma outra boneca. 
Ela era obviamente diferente da boneca original. 
Uma carta anexa explicava: “minhas viagens me transformaram…”. 
Anos depois, a garota encontrou um bilhete enfiado numa abertura escondida da querida boneca substituta. 
O bilhete dizia: 
“Tudo que você ama, você eventualmente perderá, mas, no fim, o amor retornará em uma forma diferente”.
Franz Kafka e a Boneca Viajante