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sábado, 1 de junho de 2019

A ortomania

No líquido da pós-modernidade que escorre não sei para onde, surge algo sólido e concreto: a certeza de que há uma maneira certa para se fazer o que quer que seja.
Agora, há uma maneira certa para seduzir, para fazer sexo, para se vestir, para arranjar um emprego, para falar, para fazer cocô, para viajar, para escrever um livro, para se vestir, para cozinhar, para ser.
E para nos ensinar tudo isto, temos o coach, de procedência duvidosa, que sabe tudo, é idolatrado e ganha milhões. Tempos sombrios. 
*Ortomania, neste sentido é um neologismo meu, mas também pode ser uma mania imaginada por linhas retas.

sábado, 18 de maio de 2019

O animal envergonhado


O animal que existe no homem é proibido. Contraditoriamente, também usufruímos do animal escondido. 
Todas as características  eminentemente animais são tacitamente negadas. Defeca-se, urina-se, tira-se meleca do nariz, peida-se e fode-se veladamente.
Como dizia Nietzsche: "somos uma corda atada entre o animal e o além do homem." Somos uma corda sobre o abismo.

sábado, 13 de abril de 2019

Próximo livro

Uma história real acontecida no final dos anos 80, no Brasil, que expõe o horror da psiquiatria e dos hospícios dessa época.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Os novos penitentes

Quando me assusto com a estética da pós-modernidade, sou levado a pensar que se trata de uma nova forma de penitência.
Tatuagens feitas às custas de muito dinheiro e sofrimento, alargadores de orelhas e não só, piercings, roupa rasgada, mochilas gigantes,  body "art", corset piercing, músculos expostos e gorduras esparramadas, cabelos azuis, barbas  à Pedro II, cabeças raspadas e para completar, celulares sempre ligados. Com certeza, são os novos pagadores de promessas.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

O pós-humano

O pós-humano tem a nova cara do fascismo e não parece porque a maioria se diz apaixonada e solidária com todas as minorias e com todas as vítimas de preconceito. Ou é piada ou é puro delírio.
O que é que houve? Será que o impossível aconteceu? Desde quando a maioria estulta se interessa por injustiças? Não consigo acreditar em tamanha magnanimidade. Há alguma impostura neste modismo.
Numa época de desenfreada barbárie querem me convencer que o pós-humanismo  se humanizou? Só pode ser uma farsa intelectual.

sábado, 6 de outubro de 2018

Para os leitores da bíblia











Quando se fala em procriação, todos citam de maneira retumbante (quase batendo no peito) o célebre "crescei e multiplicai-vos".«Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra » (Gn 1, 28). Isto foi "dito" quando o paraíso ainda existia.
Esquecem-se, no entanto, do Nazareno em Lucas 23, versículos 27, 28 e 29.
Enquanto Jesus era levado para ser crucificado no Gólgota (Calvário), algumas mulheres o seguiam e se lamentavam por causa dele. 
Jesus, porém, voltou-se para elas e disse: "Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai, antes, por vós mesmas e por vossos filhos! Pois, eis que virão dias em que se dirá: Felizes as estéreis, as entranhas que não conceberam e os seios que não amamentaram!"
Neste período, não havia mais paraíso. Já estávamos sob o Império do Mal.

sábado, 18 de agosto de 2018

O fim do mundo

Estamos em pleno fim do mundo. O fim do mundo não é um momento; é um processo.
Joaquim ESTEVES

Óticas mutiladas


É assustador como os valores e os conceitos mudaram para pior. 
A sinceridade é mais uma das qualidades que envelheceu. Está tudo velho e o novo é completamente insano.
Não há mais pessoas sinceras. Quem é sincero, hoje responde por outro adjetivo: polêmico, ou seja, duvidoso, controverso, discutível, problemático, etc. Ser sincero, agora é um grave defeito.

terça-feira, 31 de julho de 2018

Os cães de Pavlov



A repetição é uma das bases da assimilação, da memorização e da incorporação de conteúdos. A repetição não é todavia, a base de um verdadeiro aprendizado. Ivan Petrovich Pavlov serve para cachorros e seres humanos precários. Freud, Jung, Reich, Lacan e outros, só podem ser aplicados a seres mais sofisticados. Afinal, até prova em contrário, cães não sofrem de complexo de Édipo.
Em certas regiões e camadas desta limada e polida cultura Judaico-Cristã, só se pode aplicar Pavlov.
Os cães estão à solta, hidrófobos, espumosos, loucos e de terno e gravata . 
Os cães latem preservando orgulhosamente o tom e as pausas dos latidos politicamente corretos. 
Cair no abismo, viver no abismo, caminhar no abismo é para muito poucos. Rezar no abismo é recurso desesperado de determinado setor. Negar o abismo é uma estratégia pretensamente astuciosa de quase toda a humanidade. 
A repetição por suas características promove a manutenção, o estatismo, o imobilismo, a paralisia e conduz à infelicidade.

O prazer da solidão




Somos animais sociais, já dizia Aristóteles. Precisamos dos outros para viver e dar sentido ao que fazemos. Mas também precisamos estar com nós mesmos, sem interrupções, sem telefones celulares ou redes sociais e sem nada que implique ruído externo. Não falamos da solidão profunda, que nos aterroriza, mas de um tempo para refletir, que nos ajuda a sermos mais exigentes, mais criativos e mais felizes. Quase nada. Vamos ver por que ela é benéfica e como consegui-la.
Primeiro, saber conviver com a solidão nos torna mais livres. Quando nos angustiamos ao estarmos sozinhos, nos aferramos a relacionamentos que podem ser nocivos ou a propósitos dos quais no fundo não gostamos, mas que nos aliviam. Na medida em que sabemos conviver sozinhos com nós mesmos (não estamos falando em ser ermitãos que é outra coisa), podemos ser mais exigentes com aqueles que nos rodeiam e claro, isso nos ajuda a termos mais autoconhecimento.
A ciência provou que a solidão nos permite valorizar mais o que temos. Nos anos noventa, Reed Larson, professor de Desenvolvimento Humano da Universidade de Illinois, realizou um estudo com adolescentes pedindo que levassem um pager. Durante alguns dias, tiveram de informar com quem estavam, o que faziam e como se sentiam. O estudo mostrou que quando estavam sozinhos estavam mais tristes, mas, curiosamente, depois desse tempo, quando voltavam a estar em companhia, seus indicadores de felicidade aumentavam mais comparativamente. De certa forma, podemos dizer que a solidão age como uma bússola, que nos faz valorizar mais o que temos ou como Larson resume, “age como um remédio amargo”.
E finalmente, nos ajuda a desenvolver mais nossos talentos. Os grandes cientistas não teriam chegado às suas conclusões se não tivessem tido espaços para realizar seu trabalho de modo solitário. Mesmo os líderes mais admirados precisam assumir a solidão na tomada de certas decisões que nem sempre são compreendidas, mas que são necessárias, segundo a análise publicada na Harvard Business Review. Se não dedicarmos tempo para trabalhar sozinhos, será difícil desenvolver todo o nosso potencial, porque a pressão de grupo nem sempre tem um impacto positivo sobre nós.
Em suma, se certa solidão é boa, precisamos colocar um parêntesis no ambiente e aprender a estar com nós mesmos. Portanto, deveríamos fazer uma pergunta simples: quanto tempo passamos por dia sem que o mundo ou as obrigações nos distraiam? Nossa agenda, inclusive durante as férias, deve incluir um tempo para estar com nós mesmos, sem celular, sem televisão. O objetivo não é criar uma solidão guiada por redes sociais ou pela televisão, mas um tempo que nos permita refletir, desfrutar dos nossos hobbies, praticar esportes ou simplesmente não fazer nada. E embora isso não seja compreendido por aqueles que nos rodeiam ou estejamos no meio de uma grande balbúrdia, precisamos defendê-lo junto ao parceiro, à família ou aos amigos. Só assim seremos capazes de nos conhecer melhor, descansar e desfrutar mais das pessoas que estão ao nosso lado. 
El País (Adaptado)