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segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O DIAGNÓSTICO

Domingo, passeava alegremente no meu possante, um Fusca 78 bege jamaica que muita felicidade já me proporcionou. Adoro o barulho de chaleira do motor fabuloso do Beatle que na França se chama Coccinelle, na Itália Magiolino, na Espanha Escarabajo e em Portugal Carochas.
Súbitamente, invade o meu campo de visão, um baixo humano, fumando e  aos berros. E dizia ele: -Você não tá me vendo porra!
- Impossível não ver o senhor.- retruquei
- Então por que tu tá me fechando?
E encostando o seu rosto, com a barba por fazer, no meu, de dedo em riste, continuava a discursar: - Vou te quebrar os corno, porra!
Diante do fato, fiz um rápido diagnóstico: baixinho, careca, sexagenário, barrigudíssimo, fumante e com traços de álcool no hálito, tratava-se de um saco cheio de infelicidade.
Ao olhar para o lado, vislumbrei aquilo de deveria ser  a mulher dele; a patroa. Esparramada no assento dianteiro, de óculos escuros, deparei-me com um personagem do Discovery Channel, desses que resolvem fazer cirurgia bariátrica filmada para que todos vejam a desgraça, o sórdido e o patético.

Era aquilo que ele carregava no seu KIA. Só via que era um KIA com rodas imensas e uma altura descomunal que para estar na moda do mau gosto, era prata.(Hoje, todos os carros são prata. Quase todas as outras cores foram excluídas. Que triste um mundo sem carros de todas as cores! Reivindico a Inclusão Pictural.)
Então era com aquele ser que mais parecia um repolho de folhas abertas, que ele dormia todas as noites numa cama de ferro reforçado.
E ele continuava a esbravejar. Prossegui calmamente o meu diagnóstico. Pela minha observação apurada, tinha meia polegada de pênis e pelas condições do proprietário nunca conseguia chegar a uma polegada, ou seja com o repolho ele já não trepava há muitos anos. Deveria ter um Pênis tipo boneco de brinquedo onde o pênis quando existe, não serve para absolutamente nada; limita-se à função meramente ilustrativa. O repolho lívido era um prova incontroversa da ação corrosiva do tempo, dos restaurantes a quilos e da angústia de existir.
E ele aproximava-se ainda mais do meu rosto com ar muito ameaçador. Olhei para a minha tranca de volante e pensei por alguns segundos em atenuar a veemência do sub-batráquio. Mas não fiz nada e tampouco disse uma palavra. Estava muito absorto no meu diagnóstico.
Tratava-se efetivamente de uma saco abarrotado de infelicidade. Para camuflar esse mal-estar insuportável, ele deve ter se endividado até à última prega de gordura, para comprar o Carrão Coreano do Sul. Se bem que ele tinha cara de Coreano do Norte.
Como eu dirigia um fusca, ele na sua coreanice achou que me impressionava. As rodas do carro dele, só as rodas tinham a altura do velho fusquinha. Coitado do meu Aguinaldo! Passa por cada uma!
Então é assim pessoal. Quem é FELIZ pode até andar de Fusca. Quem é muito infeliz como o Barril de Pólvora que encontrei domingo passado, só pode andar de KIA.
Entrei no meu fusquinha e acelerei o quanto ele aguentou. Boa noite infelizes.

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