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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

UM ENCONTRO NO LABIRINTO


"Não é facil encontrar a felicidade em nós mesmos, mas é impossível encontrá-la em outro lugar."
Agnes Repplier - The treasure Chest
Dia desses vi um homem muito concentrado lendo a bíblia. No final da judiciosa  prospecção beijou a bíblia com o desespero de quem deseja encarniçadamente se encontar. Não me parecia um Ser encontrado. Não me pareceu que ele tivesse celebrado um contrato tácito e solene consigo mesmo. A bíblia, a meu ver, não é um bom lugar para um encontro pessoal.
Surpreendi-me perplexo com mil interrogações na cachimônia. Como alguém ousa tentar encontrar-se num livro como a bíblia? A bíblia é um compêndio de contradições, equívocos e traduções incorretas. Além disso, que credibilidade podemos atribuir à tradição oral? Conhecemos perfeitamente os malentendidos da tradição oral. Apesar da minha deformação católica, sempre me surpreendeu o fato de utilizarem a bíblia como fonte de entendimento e felicidade. É muito bizarro.
Não vejo nenhum entendimento nessa coleção de livros absolutamente suspeita, manipulada e tendenciosa.
A bíblia e os seus textos enigmáticos, metafóricos e herméticos já promoveram e ainda promovem muito derramamento de sangue. Matar em nome de um deus confuso é uma prova indisputável de patologia mental crônica. Como é que alguém se encontra num livro assim? É contraproducente e beira a loucura. A loucura religiosa não só é admitida como estimulada. Diz-se que não se pode viver sem religião. Será? Vejo muita gente atormentada recitando frases que não significam nada. A bíblia é um código a que sempre recorrem como Carta Magna da Metafisica. Ninguém pode contestar a "profundidade" dos capítulos e versículos. Como é que palavras ditas na poeira dos séculos e dos desertos por personagens anacrônicos podem tornar-se Lei inarredável? Se você não tem coragem de se assumir só, não apele tanto para o irracional. Não admiro quem está sempre de muletas. Quero pegadas, não rastros de muletas.
O encontro pessoal que todos com certeza ambicionam, passa por uma folha de papel em branco, auto-concentração, introspecção, ensimesmamento e pela descoberta do que está dentro de nós. Dentro de nós há uma coisa e essa coisa somos nós.  
A minha felicidade não está em Nova York e muito menos em Paris. Ela só pode estar aqui no meu quarto onde agora escrevo esta postagem. Se você se amarra num labirinto, caminhe no seu. Se no seu já é difícil se encontrar, imagine no labirinto que os outros inventaram. 
P.S.- E eu nem me referi à Exegese e à Hermenêutica Bíblicas.

Um comentário:

  1. Depois da leitura de seu texto, Joaquim, lembrei-me que, certa vez, durante uma aula em um curso de graduação tradicional, o professor que estava com a Bíblia nas mãos, subitamente deixou-a cair ao chão e sobre ela colocou o seu pé calçado. Inicialmente, ninguém entendeu nada. E ele, tranquilamente, a olhar para a turma, disse: "Este é apenas um livro. De nada adianta andar com ele sob o braço para cima e para baixo, querendo mostra o quão religioso você é.". Alguém pode até discordar do método usado pelo professor para ensinar uma lição. Porém, o debate que se seguiu foi tão frutífero que eu achei válido aquele ato pensado. Cada um apreendeu o que pode. Penso que o encontro com Deus se dá no secreto do seu quarto e Ele, no secreto do seu quarto, lhe recompensará com alguma resposta. Enfim, não adianta ficar orando nas esquinas, somente para ser visto pelos outros.
    Um grande abraço, Joaquim e obrigado por me fazer lembrar disso.

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