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sábado, 17 de outubro de 2020

Os salvadores de um mundo podre

No início, eu também fiquei muito impressionado. O que teria acontecido? A maioria queria salvar a humanidade. Quase todos lutavam pelas minorias injustiçadas. Justiça, justiça, justiça. Justiça para os negros, para as mulheres e para os homossexuais. Justiça.
Mudaram nomenclaturas, palavras e apregoando diversidade proibiram dizeres e comportamentos. Os próceres da igreja católica já concluíram que a proibição não controla, estimula. O que estaria acontecendo?
Uma década depois, constato que é tudo mentira e representação. Os injustiçados continuam injustiçados. Nada mudou. O preconceito grassa altaneiro e senhor e os oprimidos apodrecem mais rápido no hálito bacteriano dos falsos redentores.
Os heróis libertadores se multiplicam, mas é puro exibicionismo e voyeurismo não sexual. Os salvadores se promovem às custas das vítimas e não fazem porra nenhuma.
Os antípodas ensandecidos de direita e extrema direita, também querem salvar o mundo. A salvação do mundo é a coisa mais ambicionada do mundo. Não bastava o Nazareno que também não salvou nada. Tudo é retórica e loucura institucional.
Todos se habilitam ao messianato  e nada de concreto acontece. Os Cristos pós-modernos desfilam presunçosos no Facebook e é inútil.
Ficou muito tarde para salvar o mundo. O mundo se decompõe há milênios sem  que ninguém faça nada.
Só a educação poderia nos salvar da barbárie e do apocalipse, mas educação não está na moda. Nem aqui nem na França.
Vamos salvar as espécies extintas. Vamos salvar os valores defuntos. Vamos salvar a generosidade dos que não têm mais coração. Vamos salvar o espelho dos narcisos. Vamos salvar a lucidez dos loucos de pedra. Vamos salvar o mundo que arde por obra de psicopatas piromaníacos. Vamos salvar.
Eu muito modestamente, contento-me em administrar o fedor da podridão e as dimensões majestosas do meu lamento.

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