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terça-feira, 30 de junho de 2026

OBSERVANDO O FIM DO MUNDO

O fim do mundo está aqui na minha frente. Este objeto macabro, a que chamam celular, filma os destroços do planeta em tempo real.
Não consigo participar deste apocalipse porque este holocausto não me pertence. 
Este excesso onde falta tudo, esta insanidade familiar, esta exaustão que não se cansa, esta exposição desnecessária e corriqueira, o coro desafinado de mentes doentes, tudo isto está aqui na palma da minha mão. 
Este circo trágico, esta premiação constante dos ignorantes, este horror cheio de filtros, estes pervertidos pelo dinheiro, este festival de golpes, este desfile mórbido de egos obesos, está tudo na palma da minha mão.
A tecnologia edificou as ruínas do coração humano.
Não há mais dúvidas, aperfeiçoaram o demônio e o inferno tem outros nomes e já podem chamá-lo de Google ou Facebook. 
No fim de tudo, descubro estupefato que o meu ideal de amor e perfeição são  os gatos, os cães e pouco mais. 




quinta-feira, 25 de junho de 2026

TODOS OS SOFRIMENTOS

Todo o sofrimento me comove. Viver e sofrer são verbos muito regulares.
Todavia, só consigo admirar de verdade quem sofre de cara limpa. Quem se anestesia primeiro para sofrer melhor depois, não é digno do meu fascínio nem do meu encanto.
Quem tem deus, religião,  tem pouca coragem. Quem se droga e enche a cara de delírios, só traz mais lixo para a seu coração. 
Sofro pelo amor perfeito da minha gata Felícia que deixou de ser, mas continua a existir em todos os átomos que me constituem.
O sofrimento acolchoado e amortecido por alucinações é um sofrimento menor.
Admiro a minha coragem, mas não  deixo de lamentar todo o sofrimento que há na terra, até dos mais fracos.
Todo o sofrimento me inspira grande respeito. 
Sonho com um mundo onde só os gatos seriam imortais.







sábado, 20 de junho de 2026

MISANTROPIA

A propósito de misantropia, quem em sã consciência e com um mínimo de lucidez, consegue defender o ser humano enquanto espécie? Quem?
Nem precisamos ler o horror da história geral.
O ser humano é indefensável. É um acidente cósmico-trágico. É talvez o maior erro dos deuses. É um equívoco do tamanho do planeta que ele não para de destruir. 
Neste contexto, proponho modestamente a substituição do verbo humanizar, tão vulgar e sem sentido, pelo verbo animalizar.
Os animais me comovem e  só com eles o amor pode ser perfeito. 
Vamos animalizar a saúde, a educação, as redes sociais, os transportes e todos os governos.
Animalizemos pois.


A EVOLUÇÃO DA ESPÉCIE

Finalmente a obra está completa. Quando eu nasci era "AMAI-VOS UNS AOS OUTROS." E foi assim durante várias décadas.
De uns tempos pra cá, na modernidade líquida, passaram a "ODIAI-VOS UNS AOS OUTROS." 
E mais recentemente respira-se o CO2 de " ENGANAI-VOS UNS AOS OUTROS." mesclado com " AMA APENAS A TI MESMO." e " ATACAI-VOS UNS AOS OUTROS."
Agora, estão todos felizes e alegres tomando Rivotril, Sertralina e Ritalina.
Que mundo maravilhoso!
Alvíssaras!




sábado, 6 de junho de 2026

VIDA MORTE E DIVERSÃO


Eu não escrevo para as massas. Se você faz parte da galera, vá procurar a sua turma imensa e louca.
Aqui, é só para poucos. Então, que a minoria seleta leia isto. 
Enquanto os seus pais estavam numa luxúria a dois, a sua sentença de vida e de morte estava sendo escrita entre um gemido e outro.
Inominável! Como se decreta a vida, o sofrimento e a morte de um ser humano num ato tão fétido, egoísta, negligente e sórdido?
Você surgiu enquanto os seus pais riam, bebiam, se divertiam e achavam que estavam fazendo amor. É  muito provável que estivessem bêbados.
Em momento nenhum,  eles pensaram em você. Quando a barriga estufou, eles disseram  que foi apenas um descuido. Para eles, você não passa de um  acidente. Não poderia ser mais irresponsável e ridículo.
Que horror! Que alienação! Que obscuridade! Que baixo nível!
"Crescei e multiplicai-vos" é o caralho.


sexta-feira, 5 de junho de 2026

UM ATEU MELANCÓLICO

Ninguém mais do que eu gostaria que deus existisse.
Por que razão não consigo delirar sem pudor e conceber um deus protetor e amoroso?
Como os meus congêneres são capazes de chamar de fé o que é pura loucura e medo do horror da existência?
Como os outros conseguiram conforto e bálsamo em uma ilusão robusta e irresistível?
Pobre de mim que não temo os martírios da verdade e das evidências.
Pobre de mim que agarro a ferocidade cruel da vida pelos cornos e sou ferido.
Pobre de mim que tive a audácia de fugir dos arroubos ruidosos da multidão ensandecida e tranquei com determinação a porta do meu quarto para sofrer com dignidade e coragem as consequências de uma ejaculação irresponsável.
Pobre de mim...